Os jovens de hoje são chamados de geração y. São os “nativos digitais” enquanto seus pais são “migrantes digitais”. Há algumas razões históricas para que sejam chamados assim, mas não vou abordar essas questões. Quero trazer outras reflexões que possam ser úteis para entender essa turma e também ajudá-los.
Conectados ao mundo pelas novas tecnologias, eles se sentem muito à vontade com internet, blogs, twitter, Orkut, Facebook, celulares, youtube, mensagens de texto e tantos outros meios de “comunicação”.
A violência, a insegurança, medo das drogas e o medo de que as crianças “se perdessem no mau caminho” fizeram com que a grande maioria dos pais criasse seus filhos presos atrás dos muros dos condomínios ou das paredes dos apartamentos.
A grande necessidade de conversar, fazer amigos, ouvir músicas juntos ou de apenas manter contato estava represada, suprimida, abafada por essas modernas prisões que se construíram em nome de manter vivos os filhos. A vontade de fugir e ser feliz andando por aí “sem lenço e sem documento” não podia acontecer. Até que a tecnologia trouxe as soluções.
A velocidade com que esses jovens aprenderam a usar a tecnologia e a se comunicar, trouxe novas formas de lidar não somente com as informações, mas com o mundo. A geração y tem uma forma diferente de lidar com chefes nas empresas. Ela respeita o chefe que tem conhecimento e que se dispõe a ensiná-la. Respeitar apenas porque o chefe é chefe é para a geração passada.
Esses jovens querem aprender, querem novos desafios, querem ensinar o que aprenderam. Se a empresa não abre esse espaço, procuram outro lugar. Fazem o mesmo com as relações pessoais.
Quem não se lembra de falas de pessoas idosas dizendo: “fiquei casado todo esse tempo por causa de nossos filhos”; “não me divorciei em nome da imagem que eu tinha”; “suportei ficar com ele porque eu não tinha outra opção na vida”; “uma mulher divorciada era mal vista, por isso continuei com ele...”; “não a larguei porque meus pais ficariam arrasados”... e outras razões frágeis, mas que hipocritamente justificavam a continuidade da relação. E nossos jovens “y”? Eles casam por amor e só permanecem por amor. Talvez por isso o número de divórcios tenha aumentado. A hipocrisia diminuiu. No entanto, há outras coisas que precisam ser ditas.
Primeiramente, não acredito que eles estejam “mais conectados” ao mundo e aos amigos. Que profundidade há num recado escrito de 140 caracteres? Obviamente muito se pode dizer em poucas palavras, mas uma amizade profunda precisa de muito mais. É necessário investimento de tempo, dedicação, compreensão, cumplicidade e perdão. No caso deles, é mais fácil desconectar alguém que esteja “pegando no pé” do que discutir e chegar a um acordo. É mais fácil “ficar”, ter intimidade por um tempo pequeno e depois “cair fora” do que manter um relacionamento íntimo em que os conflitos possam ser expostos e o perdão seja praticado.
É artificial criar um “perfil” num site de relacionamentos mostrando apenas o que se decidiu mostrar. Amizades reais requerem exposição de todas as nossas características, não apenas as que são escolhidas para serem declaradas. O número de amigos aumentou, há jovens com amigos no mundo todo, mas são mantidos na superfície.
A busca incessante pelo prazer e realização pessoal torna as pessoas muito “umbigocentradas” e a solidariedade humana, a compreensão e o não-preconceito não encontram espaço. Os valores da geração y são fortes, mas as ações reais podem estar distantes de serem realizadas.
O que podemos fazer, nós, os da geração anterior? Creio que, primeiramente, cuidar para não criar mitos. Não podemos deixar na mão deles a transformação do mundo, pois eles também precisam de apoio, compreensão, críticas, frustrações e muita experiência de vida para decidir o que pode ser melhor para as próximas gerações. Não se fazem mudanças significativas sem respeitar as gerações que ainda estão aqui e as que estão vindo.
Esses jovens são tão carentes como nós somos, ou como nós fomos. Foram mais superprotegidos que nós, mas assim como isso traz fragilidade emocional, traz também um posicionamento diferente perante a vida: não aceitam a submissão nem a subserviência. Não aceitam ordens sem sentido. Não aceitam chefes incompetentes. Talvez seja essa sua maior vantagem. A competência terá que assumir o lugar. Vamos sonhar com as próximas eleições, principalmente com urnas repletas de votos em competentes e não nas promessas vazias de pessoas que dizem que vão fazer durante o mandato o que nunca fizeram antes de entrar na política.
A geração y já está trazendo mudanças. Precisamos estar abertos a elas, mas conscientes de que nem todas serão boas. É preciso alertar os jovens continuamente para que aprendam a suportar frustrações e acreditar na persistência. Sem isso, dificilmente serão felizes. A vida não é só prazer.
Por outro lado, a vida pode trazer muito mais do que nós, os da geração anterior conquistamos. Além disso, nem todos os jovens de hoje são assim, “conectados” ou “superficiais” em suas relações. No entanto, compreender como os y funcionam, nos permite compreender boa parte dos jovens entre 20 e 30 anos. Queridos “y”, estamos aqui. Contem com nossa ajuda. Deixem-nos aprender com vocês. E ouçam a gente com o coração, pois sonhamos com o seu sucesso.
MARCOS MEIER é mestre em Educação, psicólogo, escritor e palestrante.
Seus textos encontram-se no site www.marcosmeier.com.br e seus livros no site www.kapok.com.br
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